Denis (02)

Denis Shimada

Formação Feldenkrais Brasil III - Porto Alegre

Segmento 1

Não foi exatamente uma briga. Mas, foi uma troca mais áspera. Contrastando ainda mais com a usual delicadeza dos nossos afagos emocionais. Ela não teve culpa. Algo me incomodava e estava bravo comigo mesmo, sem saber.

O discurso de dedo em riste acabou sobrando pra ela naquele dia. E ela, amiga que é e esperta que é, não pegou pra ela o que não era dela. Então não foi a aspereza, que ela generosamente escolheu não retribuir, mas a surpresa dela pelas minhas palavras que carinhosamente me esbofeteou a cara.

E, depois da minha vez de sentir surpreso, caiu a ficha. Estava bravo comigo mesmo por já estar cansado de me sentir perdido desde a volta, em luto por um eu que nem era assim tão maravilhoso. Apenas familiar.

E esse luto, ainda que necessário agora impede um avanço, uma busca por outras coisas novas que precisam preencher o lugar do que já não me serve mais.

Uma outra amiga ilustrou esse momento com extrema sensibilidade: imagine que você está acostumado a viver num buraco. Apertadinho, escuro, úmido e sem espaço pra se mexer. E aí, esse processo da Formação vem, te arranca desse buraco e te larga no mundo. A luz, o frio, a chuva, o calor, a brisa... tudo é novo, tudo é diferente. Tudo é nada parecido com o buraco que você estava acostumado.

Então, você tenta voltar pro buraco de qualquer jeito, mas percebe que não cabe mais nele. E mesmo assim você tenta. Força uma perna, espreme a cabeça, empurra um braço. Você força, se esforça, grita, chora e esperneia. Mas, por mais que tente não tem como voltar pra dentro.

Eu acho que talvez eu esteja aí, nesse momento. Onde vejo que não vou conseguir voltar mais e começo a querer procurar ferramentas pra cavar um buraco novo, maior e mais adequado pro tamanho desse novo eu.

Ainda que lá no fundo mais profundo, eu saiba que melhor do que um buraco na terra seria uma casa na árvore, rodeada por flores e com vista pro mar.

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